Avançar para o conteúdo principal

Ociosidades


Hoje serei crisálida. Vou arrancar do pulso o conta horas, libertar os pés de meias e sapatos e, como quem se alivia de um peso de chumbo, atirar o corpo inerte contra a moleza do colchão. Enquanto me esvazio de sons, vou deixar o pensamento afundar-se numa almofada de sonhos. Vou ignorar cada ruído até o ar ser só silêncio possível de respirar. Vou esconder os olhos da luz do dia e deixar correr a persiana que me separa do mundo lá fora. Ao parar de contar, começo a sentir. Duas horas de vagar são muito mais que cinco horas de pressa. O tempo espreguiça-se prolongando a tarde num dia inteiro. Sinto cada minuto durar o tempo de um prazer. E os prazeres são eternos, só eles sabem estender-se no repouso infinito da memória. Levanto-me de um sono leve oferecendo sorrisos às paredes. Ainda é dia e os móveis estão pintados de cores mais alegres a esta hora. De corpo enroscado no calor de um robe, piso o frio do chão com os bicos dos pés até às páginas de um livro abandonado. Aconchegada num conforto de sofá, sorvo cada palavra como se bebesse um saber líquido que refresca a mente e alimenta as fomes da alma. Só o escuro me lembra que o tempo existe e que insiste em passar. Aqui do casulo, onde entrei lagarta, amanhã sairei borboleta e terei aprendido a voar, um pouco mais alto, um pouco mais longe, talvez um pouco mais forte.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Noventa euros em frutos tropicais

Saborear um fruto exótico pode ser uma experiência inesquecível mas longe do alcance de todas as carteiras Há quem diga que a melhor forma de conhecer um local e as suas gentes é deambular a pé pelas ruelas que se entrecruzam à nossa volta e visitar o mercado municipal. E foi isso mesmo que fiz no primeiro dia de visita ao Funchal. Saio do hotel, localizado no coração do centro histórico, e começo a atravessar ruas aleatoriamente. Começo por seguir pela principal e depois arrisco atalhos pelas perpendiculares, à procura de pessoas e de casas com portas e janelas entreabertas por onde possa espreitar. Liberto toda a curiosidade que se esconde em mim e dou-lhe trela. Quero que seja ela a puxar por mim e por isso deixo-me guiar pelo seu instinto. Sem que tenha andado mais de 500 metros, dou comigo à entrada do mercado municipal. Na fachada leio a inscrição “Mercado dos Lavradores”, mas depressa descubro que este mercado é sobejamente conhecido pelo mercado das flores. Basta atravessar o p...

Quando a avó me levava ao parque

Quando a minha avó me levava ao parque, eu tinha cinco anos e ainda sabia ser feliz. A avó levava sempre a minha mão bem apertada pelo medo de não me deixar fugir. Esses dias eram sempre finais de tarde de verão, daqueles que o Sol gosta de prolongar até que resolve esconder-se. Depois de jantar, lá íamos nós, rua acima, pela fresquinha – como ela dizia – agradada com a brisa que antecede o anoitecer. Lá em casa, jantávamos cedo, às seis da tarde já a comida estava na mesa. Era assim por causa do avô. Ele chegava das obras com a roupa e as botas pesadas de cimento e tomava sempre banho antes de ocupar o seu lugar cativo à mesa. Depois, com as mãos espessas e ásperas de tanto acartar baldes de massa, cortava uma fatia de pão. Vida dura a do avô. As obras começavam sempre cedo, sobretudo no verão, para fugir à braseira estival. Vida dura a da avó. Uma vida feita de espera e de cuidar dos outros. Mas nem um lamento. Daquela boca só saíam jóias e rebuçados. Daquelas mãos, só carinho. Da...

Quatro Primaveras

Sou tua mãe mas não te vi nascer. Pode parecer estranho, mas foi assim que aconteceu. Há quatro anos, era de noite. Ainda não era Primavera, mas estava um clima ameno, primaveril. No relógio de parede, o ponteiro pequeno estava fixo no número um e o grande apontava para o oito. Eram uma e quarenta da manhã de terça-feira, dia 11 de Março de 2008. Quando choraste pela primeira vez, eu não te ouvi. Ferrada num sono profundo, não te ouvi, nem te vi, nem peguei em ti ao colo, nem chorei de felicidade por sentir uma emoção nova, tão rara, que pode acontecer uma única vez, ou poucas vezes na vida. Lamento não ter sentido as dores. Lamento, ainda mais, não ter conhecido a explosão de emoções que as sucedem. Estava anestesiada, esventrada e longe do meu bebé. Lamento tudo isso, mas sei que foi por bem. Os corpos escondidos por detrás de todas aquelas batas brancas, sem nome, sem voz, quase sem rosto, salvaram-te a vida. Bendita seja a medicina. Despertei nauseada, horas depois. De um lado, e...