Avançar para o conteúdo principal

O caminho da felicidade

A linha não é recta. São ziguezagues, pontos unidos por linhas acima e abaixo. Os picos são os momentos em que o coração parece querer saltar do peito. Aquele beijo que eu te dei e que tu me deste de volta no momento em que queríamos os dois. A alma a desprender-se do corpo num arrepio quando a tua boca olha a minha enquanto os teus olhos a beijam como se fossem lábios. Um aplauso sonoro, o reconhecimento de que tudo o que fizeste e choraste não foi em vão. A felicidade não se mede em tamanho nem peso. Ser feliz é ser desmesurado. Não medir, nem esperar, saltar mais alto e mais longe, sem temer o limite ou a dor. Ser feliz é um voo em queda em livre de olhos fechados e braços abertos e sorriso esborrachado contra o vento. É um mergulho que se dá sem roupa, deixando as carnes livremente flutuar. Ser feliz é não ter vergonha nem medo. Fazer o tempo todo o que se quer e não apenas o que o mundo diz que se pode. Ser feliz é simplesmente permitir-se. Felicidade é a alma gémea da liberdade.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

RECONFINAMENTO - III

Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

SONHOS INVERTIDOS

Acabei por tornar-me naquilo que nunca quis ser: um funcionário alfanumérico de uma dessas empresas capitalistas para quem os trabalhadores são descartáveis e insignificantes. Por mais que faça, ou seja capaz de fazer, não valho muito mais que um salário mínimo. Que motivação esperar de mim superior a q.b.? Picar o ponto, numa pontualidade milimétrica, ser paciente face à impaciência alheia, e sorrir, quando nada mais puder, face à inversão dos sonhos acalentados num passado de onde ainda vislumbrava futuro. 

Quando a avó me levava ao parque

Quando a minha avó me levava ao parque, eu tinha cinco anos e ainda sabia ser feliz. A avó levava sempre a minha mão bem apertada pelo medo de não me deixar fugir. Esses dias eram sempre finais de tarde de verão, daqueles que o Sol gosta de prolongar até que resolve esconder-se. Depois de jantar, lá íamos nós, rua acima, pela fresquinha – como ela dizia – agradada com a brisa que antecede o anoitecer. Lá em casa, jantávamos cedo, às seis da tarde já a comida estava na mesa. Era assim por causa do avô. Ele chegava das obras com a roupa e as botas pesadas de cimento e tomava sempre banho antes de ocupar o seu lugar cativo à mesa. Depois, com as mãos espessas e ásperas de tanto acartar baldes de massa, cortava uma fatia de pão. Vida dura a do avô. As obras começavam sempre cedo, sobretudo no verão, para fugir à braseira estival. Vida dura a da avó. Uma vida feita de espera e de cuidar dos outros. Mas nem um lamento. Daquela boca só saíam jóias e rebuçados. Daquelas mãos, só carinho. Da...