Avançar para o conteúdo principal

A desumanização

“A desumanização”, Valter Hugo Mãe, 2013
O que dizer de Valter Hugo Mãe, um escritor que chegou viu e venceu? Se há pessoas que nascem com o dom da palavra, ele foi um deles. Não tem, porém, uma escrita fácil nem consensual. Só um apreciador de belas artes gostará de lê-lo. A escrita de Hugo Mãe roça o surrealismo e causa por vezes estranheza, antes do verdadeiro prazer. Nunca o tinha lido enquanto romancista, confesso. Há muito que sigo as suas crónicas no Jornal de Letras e noutras publicações, apreciando-lhe o estilo: frontal e cristalino, por vezes de uma inocência infantil, sempre a prosar de olho na poética que cada entrelaçar de palavras pode encerrar. A leitura deste seu último romance - “A desumanização” – vem confirmar-me a ideia de que estamos diante de um grande escritor português, com um estilo muito vincado, onde uma obsessiva busca pela literalidade se sobrepõe sempre ao valor da história. Há momentos em que quase esquecemos o conteúdo narrado e nos deleitamos apenas a admirar a construção frásica e as analogias encontradas para nos expor diante uma imagem que contemplamos como um amante de arte. Este é um livro só para leitores maduros. Não recomendado aos que apenas lêem por mera distracção.  A busca do sentido da vida por uma gémea dos fiordes islandeses, que acaba de perder a irmã que lhe servia de espelho, é um mero pano de fundo para as mil e uma divagações do autor sobre os mais diversos temas com que se confronta toda a existência humana. 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Noventa euros em frutos tropicais

Saborear um fruto exótico pode ser uma experiência inesquecível mas longe do alcance de todas as carteiras Há quem diga que a melhor forma de conhecer um local e as suas gentes é deambular a pé pelas ruelas que se entrecruzam à nossa volta e visitar o mercado municipal. E foi isso mesmo que fiz no primeiro dia de visita ao Funchal. Saio do hotel, localizado no coração do centro histórico, e começo a atravessar ruas aleatoriamente. Começo por seguir pela principal e depois arrisco atalhos pelas perpendiculares, à procura de pessoas e de casas com portas e janelas entreabertas por onde possa espreitar. Liberto toda a curiosidade que se esconde em mim e dou-lhe trela. Quero que seja ela a puxar por mim e por isso deixo-me guiar pelo seu instinto. Sem que tenha andado mais de 500 metros, dou comigo à entrada do mercado municipal. Na fachada leio a inscrição “Mercado dos Lavradores”, mas depressa descubro que este mercado é sobejamente conhecido pelo mercado das flores. Basta atravessar o p...

Quando a avó me levava ao parque

Quando a minha avó me levava ao parque, eu tinha cinco anos e ainda sabia ser feliz. A avó levava sempre a minha mão bem apertada pelo medo de não me deixar fugir. Esses dias eram sempre finais de tarde de verão, daqueles que o Sol gosta de prolongar até que resolve esconder-se. Depois de jantar, lá íamos nós, rua acima, pela fresquinha – como ela dizia – agradada com a brisa que antecede o anoitecer. Lá em casa, jantávamos cedo, às seis da tarde já a comida estava na mesa. Era assim por causa do avô. Ele chegava das obras com a roupa e as botas pesadas de cimento e tomava sempre banho antes de ocupar o seu lugar cativo à mesa. Depois, com as mãos espessas e ásperas de tanto acartar baldes de massa, cortava uma fatia de pão. Vida dura a do avô. As obras começavam sempre cedo, sobretudo no verão, para fugir à braseira estival. Vida dura a da avó. Uma vida feita de espera e de cuidar dos outros. Mas nem um lamento. Daquela boca só saíam jóias e rebuçados. Daquelas mãos, só carinho. Da...

Quatro Primaveras

Sou tua mãe mas não te vi nascer. Pode parecer estranho, mas foi assim que aconteceu. Há quatro anos, era de noite. Ainda não era Primavera, mas estava um clima ameno, primaveril. No relógio de parede, o ponteiro pequeno estava fixo no número um e o grande apontava para o oito. Eram uma e quarenta da manhã de terça-feira, dia 11 de Março de 2008. Quando choraste pela primeira vez, eu não te ouvi. Ferrada num sono profundo, não te ouvi, nem te vi, nem peguei em ti ao colo, nem chorei de felicidade por sentir uma emoção nova, tão rara, que pode acontecer uma única vez, ou poucas vezes na vida. Lamento não ter sentido as dores. Lamento, ainda mais, não ter conhecido a explosão de emoções que as sucedem. Estava anestesiada, esventrada e longe do meu bebé. Lamento tudo isso, mas sei que foi por bem. Os corpos escondidos por detrás de todas aquelas batas brancas, sem nome, sem voz, quase sem rosto, salvaram-te a vida. Bendita seja a medicina. Despertei nauseada, horas depois. De um lado, e...