Não me ofereças
flores, escreve-me cartas. Oferece-me suspiros feitos de crença em mentiras
inócuas. Faz-me sentir tua. Toma-te de posses por mim, já que nada temos de
nosso a não ser isto que nos une: uma fúria divina só provada pelos que nada
temem aos céus. Até os deuses consentem, abençoando às cegas quem se quer
assim. Que mal pode fazer um amor sem fim? Talvez excessivo seja para o músculo
que bate, bate. Chegará esgotado às noites, pela arritmia dos dias, mas
adormecerá feliz, almofadado na certeza de que pulsa por alguém.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

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