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Perdidos e achados

Haverá outra forma de treinar o desapego senão perdermos alguma coisa de vez em quando? Estimamos os nossos objectos como se pessoas fossem e choramo-los quando partem, como se não suportássemos a existência sem eles. E esquecemo-nos sempre que nada temos de verdadeiramente nosso. Tudo vem e vai. De tudo e de todos teremos de nos despedir um dia, para sempre. Há todo um mundo que não voltaremos a ver e que não levaremos connosco no bolso. Mas insistimos. A nossa casa. O nosso carro. Os nossos objectos pessoais. Ignoramos tufões, incêndios e terramotos. Não queremos pensar nisso. Que mau agoiro. Calamidades dos outros, imagens longínquas repetidas pela televisão. Mas pode-nos acontecer. Estaremos preparados para, a qualquer momento, recomeçar do zero sem nada do que acumulámos ao longo da vida? Ninguém está. Não há quem acredite ser capaz. Até ao dia em que a fatalidade nos invade a vida e nos troca os sonhos. Ainda ontem, depois de me sentir extraordinariamente feliz com um duche quente tomado pelo gelo das cinco e meia da manhã, acabei o dia privada de uma mochila que me acompanhava nas viagens há anos. Um táxi, do qual não fixei número, cooperativa ou nome de motorista, arrancou levando, talvez para sempre, a minha mochila. Lá dentro, banalidades: uma revista de literatura, uns óculos de sol (de marca), umas luvas em pele, o meu gorro preferido, todas as minhas chaves, “A desumanização”. Era só uma mochila, pensei, antes de me entristecer. Ainda assim, lancei o alerta pelas centrais de táxis. Ninguém deu por nada. Poderá haver um taxista sem escrúpulos uma mochila mais rico. E eu, não me sentindo mais pobre, lamento sobretudo a perda do “meu” Valter Hugo Mãe, uma prenda de alguém muito estimado cuja leitura me fica sem conclusão, a oitenta páginas do fim. Mais do que tudo, perseguir-me-á o desgosto de uma obra inacabada, que tanto prazer me estava a dar.

Comentários

  1. https://www.facebook.com/janaina.monteirodasilva24 de novembro de 2013 às 14:10

    Acho que você n sentiu nem tanto a perda dos objetos, mas a situação em se que passaste. Trocaria todos os meus pertences para ter ainda pessoas que amo e que fizeram a sua viagem, trocaria os meus pertences para que nunca terminasse os meus sentimentos e daqueles que tem igualmente por mim. Nada nos pertence e tudo nos é dado temporariamente sem sabermos o tempo desta duração. Um abraço forte minha cara Claudia.

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