Há horas em que sofro de silêncio
agudo. Num acto de egoísmo, engulo as palavras e guardo-as só para mim.
Retenho-as, não sei se na garganta ou na cabeça, apenas porque são palavras
feias que não quero partilhar. Se tivesse alma de génio, como o poeta,
escreveria sempre Sol. Mas, entretanto, chegou o Inverno gritando trovões e há
todo um inferno que se apodera de mim, usurpando a minha colecção de vocábulos
felizes. Quando não escrevo, jogo às escondidas com o pensamento e bebo silêncio
em goles nocturnos de chá, aquecida pelas palavras de um livro.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

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