O medo quase me travou. À última, estive para não ir. Temia o
portão fechado, numa rejeição inventada à pressa. Sem avisares que me
esperavas, receavas que eu já não fosse. Mas eu fui e tu estavas lá, de portas
escancaradas, à minha espera. Debaixo do mesmo tecto enfim, deixámos o mundo
lá fora e sorrimos. Do nosso olhar aceso, fez-se luz. Conversas iluminadas
revelaram que sonhamos a cores o mesmo sonho. Um dia, ainda havemos de comer
pipocas de pantufas e caminhar pela praia ao luar. Hoje, trocando beijos por
palavras, disseste: “Para mim, és perfeita!”. E eu, de coração a galope, recebi
esse teu presente, na esperança de desembrulhar o futuro.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

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