Os dias passam,
repetidamente, num folhear rápido de calendário. Esgota-se o tempo em noites
insones e há amanhãs sonhados que teimam em não chegar. Com infinita paciência,
persistem as preces repetidas aos deuses surdos-mudos. Saúde aos doentes,
abundância aos carentes, curas de amor aos que não encontram remédio para as
tristezas mais profundas. Os prazeres efémeros, pagos com sacrifícios
extenuantes, valem o que valem. E, repetidamente, é o cansaço que toma conta de
nós, numa espiral de suor e lágrimas tão inutilmente repetida.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

Comentários
Enviar um comentário
Se gostou deste artigo, ou tem uma palavra a acrescentar, agradeço imenso que deixe o seu comentário.