Coração
selvagem, porque não te aquietas? Porque insistes em bater dentro do peito como
um punho cerrado que suplica por ajuda urgente? A fúria de cada
pancada é uma dor líquida que se desfaz em sangue, que o corpo dilui e absorve
como um veneno. Coração vadio, corre desalmado, por caminhos sem volta, por
becos sem saída. Onde pensas que vais? Vai, perde-te, descontrola-te e volta
para mim, como eras dantes: pequenino músculo, dilatado nas surpresas infantis
da inocência.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

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