O meu pai não se chama José, nem sequer acredita em
Deus. Mas é o ateu mais cristão que conheço e tem nome de profeta. Homem de
grandes virtudes, Eliseu demonstra mais do que diz, cumpre mais do que promete.
Podia ser mais generoso a distribuir beijos e abraços mas nem isso é defeito, é
apenas feitio. De todos os ensinamentos maiores, devo-lhe a liberdade de
escolha e de pensamento. Nunca me obrigou a ser ninguém que não sou, a fazer
nada a contragosto ou vontade. Ensinou-me sim a
liberdade, sinónimo de responsabilidade, e assim a tenho cumprido. Nunca me
impôs habilidades ou religião, curso, namorado ou profissão. Nessa tamanha
liberdade de ser, deixou-me uma só condição: se errasse, que soubesse lidar com
as consequências. Ainda assim, o desamparo nunca foi castigo e a mão invisível
de pai esteve sempre comigo, nas horas de maior aperto. Pai, és um bom homem e
um homem bom. Pai, agora grisalho, és um magnífico avô. Pai, na terra és grande
como o céu. E aqui és meu Pai, senhor Eliseu.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.
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