Para alguns, a vida continua a acontecer. Não há pandemia que trave a força do amor. Pares que se encaixam, barrigas que despontam, crianças a pedir para vir ao mundo, mesmo com tudo virado do avesso. O futuro está a nascer todos os dias, ainda que só se fale de doença, desgraça e morte. Muitos sentem que o tempo parou, que a vida ficou em suspenso a aguardar respostas e soluções. Outros reinventam-se e descobrem soluções dentro dos problemas. Hoje, ao caminhar pelo deserto das ruas, procurando na dor física um esquecimento para os projetos adiados, compreendo, passo a passo, que temos todos diferentes velocidades. Apesar da ânsia de realizar, gosto de esperar. Pelos momentos, lugares e pessoas que conferem um sentido supremo à existência. Concluo que nenhuma solidão ou pressa deve precipitar o que só o tempo traz, naturalmente, com a sua infinita sabedoria.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.
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