Deixámos de contar os dias. Ficámos fechados para preservar a vida mas, no fundo, só estamos a desperdiçá-la. Cada dia em quem não abraçamos, não beijamos, não celebramos, é uma morte antecipada. A distância obrigatória é um travão dos afetos e sem eles tornamo-nos autómatos. Mantemos as funções vitais ligados à corrente e estamos todos por um fio, a fingir que o desespero não nos consome. Continuamos, sem conhecer rumo nem direção, sem saber se algum dia este pesadelo terá fim.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.
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