Num segundo, cortaram-nos o cordão e eu chorei. No clarão que me invadiu o sono, vi-me a atravessar a solidão da vida e tive medo. Quis de volta o teu colo, mãe, o teu ventre para me esconder de todas as dores que já me espreitavam logo ali. Tive tanto medo da vida, mãe, que voltei a chorar. Chorei muito. Mas tu, mãe, cuidaste de mim, como ainda hoje desejo que cuides todos os dias. Quem me dera, que ainda me pudesses pegar ao colo, mãe, sempre que o medo espreita, de todos os ângulos da vida. Para que num suspiro, mãe, eu voltasse à inocência, embalada pela paz que só existe no aconchego do teu seio.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

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