No outro dia, perdi as lentes cor de rosa e assumi uma miopia seletiva que me protege do pânico dos obstáculos em contramão. São tantos os interesses que circulam em todas as vias, prontos a colidir com os meus, que raramente consigo abertura para me encaixar. É preciso aguardar em infinitas filas de espera pelo nosso lugar para estacionar na vida. Às vezes, circundamos pessoas e lugares errados por anos. Outras vezes, o trânsito flui até ao ponto de encontro destinado, onde o estacionamento está reservado para nós. Somos veículos humanos em busca de estacionar na vida. Quem ganha a corrida é a sabedoria paciente de todos aqueles que aproveitam os atalhos e becos mais perversos para sorrir.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.
Comentários
Enviar um comentário
Se gostou deste artigo, ou tem uma palavra a acrescentar, agradeço imenso que deixe o seu comentário.