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Limpeza geral

Dizem que tenho a mania das limpezas. No início, contestava. Respondia sempre que estavam a exagerar. Mas a verdade é que continuo a ser constantemente assaltada por uma estranha obsessão em arrumar, organizar e limpar tudo o que me rodeia. Desde os papéis que se amontoam velozmente sobre a secretária à roupa suja que me vai entupindo a cesta a um ritmo assustadoramente descontrolado. Aos meus olhos, a loiça suja que se avoluma na pia assemelha-se a um cenário de guerra. Todas as coisas que se vão encostando a um e outro canto, à espera do dia em que “logo se vê” o que fazer com elas, causam-me uma espécie de horror. O mundo, tudo o que o compõe e rodeia, é mais belo quando está em ordem. Contemplo deslumbrada o quarto arrumado onde, confortavelmente deitada numa cama a cheirar a limpo, me deito a devorar as páginas de um livro. O prazer que experimento depois da exaustão permite-me fruir da beleza do momento como se de uma obra de arte se tratasse. O mundo, este meu mundo, implora-me a cada instante para que o ponha no seu devido lugar. Tudo o que não cabe num espaço acaba por ser desprezado, tal como o amor que alguém nos entrega sem que o tenhamos pedido. Oiço repetidamente que a perfeição não existe. É mentira. Eu já a toquei várias vezes, ainda que não a tivesse conseguido agarrar. Ela vem e vai. Vai e vem. Mas no entretanto deixa-se cheirar e acariciar como um bebé que pegamos ao colo e que no instante seguinte já é adulto. Quando tenho as unhas arranjadas sinto-me perfeita. Quando tenho as pernas depiladas sinto-me perfeita. Quando tenho o cabelo penteado sinto-me perfeita. Atinjo a perfeição sempre que todas as peças encaixam no puzzle formando uma imagem indiscutivelmente bela. E quando me volto a perder no meio do caos, sou inesperadamente salva pelo o imenso céu azul que numa linda manhã de Sol irrompe pelo pára-brisas fazendo espelhar novamente a perfeição que deveria existir em todas as coisas.

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