Sensação boa a cumplicidade que se estabelece com alguém que está doente. Ficamos um degrau acima, num nível superlativo de superioridade, mas na aflição tudo se estreita, sobretudo os laços entre as pessoas. E se eu for a mãe e a pessoa doente o meu filho, o colo alarga-se, capaz de acolher o mundo. Encontra-se tempo que não existe, debaixo das mantas às quatro da tarde. Surreal ver o mundo correr lá fora, numa miragem espreitada da janela do quarto. Dentro de casa, as horas esticam, ficam gigantes. Há mais minutos, muitas vezes sessenta, numa só hora longe do trabalho, à distância dos esforços que pedem pressa.
Todos os filhos são bebés quando estão doentes. Mesmo que tenham 30 ou 40 anos, naquele momento voltam a ter fraldas e faces rosadas e cheirinho de leite morno. E revelam-se em nós talentos escondidos. De repente, somos exímios narradores das histórias de encantar. Recordamos como éramos felizes a ver desenhos animados. Paramos e percebemos porque tudo parecia tão fácil. Nesse tempo, quando éramos da altura da mesa da cozinha, apreciávamos o mundo devagar, uma coisa de cada vez. Cuidar de um filho doente ajuda a cuidar de nós. No rosto da criança, um espelho transporta-nos à infância perdida, ao menino(a) que esquecemos cá dentro, aprisionado numa bola de sabão. E, de repente, sem nos darmos conta, puf, a bolha rebenta e lá saltamos nós, criança renascida com um menino(a) nos braços. É a vida a dar-nos uma segunda chance para desfrutar da velha infância, paraíso das fadas e dos humanos capazes de serem felizes para sempre.
Saborear um fruto exótico pode ser uma experiência inesquecível mas longe do alcance de todas as carteiras Há quem diga que a melhor forma de conhecer um local e as suas gentes é deambular a pé pelas ruelas que se entrecruzam à nossa volta e visitar o mercado municipal. E foi isso mesmo que fiz no primeiro dia de visita ao Funchal. Saio do hotel, localizado no coração do centro histórico, e começo a atravessar ruas aleatoriamente. Começo por seguir pela principal e depois arrisco atalhos pelas perpendiculares, à procura de pessoas e de casas com portas e janelas entreabertas por onde possa espreitar. Liberto toda a curiosidade que se esconde em mim e dou-lhe trela. Quero que seja ela a puxar por mim e por isso deixo-me guiar pelo seu instinto. Sem que tenha andado mais de 500 metros, dou comigo à entrada do mercado municipal. Na fachada leio a inscrição “Mercado dos Lavradores”, mas depressa descubro que este mercado é sobejamente conhecido pelo mercado das flores. Basta atravessar o p...

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