Eu não morri, por isso tornei-me mais forte. E, contrariando todos os médicos nos seus piores vaticínios, voltei a andar pelo meu próprio pé, pouco mais de um ano após o acidente. Também voltei a conduzir. Comprei um carro novo e afoitei-me logo à estrada, recusando-me prontamente a guardar qualquer espécie de trauma. Em vez de traumatizado, fiquei foi frustrado por tudo aquilo que deixei de poder fazer. Por inúmeras vezes, dei comigo a sonhar acordado: recordava aquele jovem atlético que corria na praia cortando o vento, que praticava judo derrubando astutamente o adversário, que podia dançar toda a noite nos bailes de Verão, que tinha duas pernas ágeis e saudáveis que o poderiam transportar velozmente mundo fora. Depois, olhava-me ao espelho e era apenas o reflexo de um homem sofrido a coxear rumo à velhice, apoiado por uma bota ortopédica compensada e uma muleta.
FIM
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.
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