Regressei a casa já num novo ano. Como a maca convencional não cabia no elevador, tive que ser transportado a ombros pelos bombeiros numa maca móvel feita de pano. Quando chegaram ao sexto andar, os dois homens estavam extenuados e eu contorcia-me com dores. A proximidade da minha cama parecia uma miragem. Quando por fim me instalaram numa posição confortável, senti-me aliviado. Aquele quarto passou a ser todo o meu mundo durante os meses que se seguiram. O cheiro a feridas ainda em sangue foi-se entranhando, primeiro na roupa, depois nos móveis, por fim um pouco por toda a casa, até ser aceite por toda a família como normal. Eu era um acamado, palavra horrível para quem diz, pior ainda para quem sente.
Sempre me intrigou como seria a vida sexual de um paraplégico. Infelizmente, não tardei em tornar-me especialista na matéria. Eu e a minha mulher tentámos retomar o contacto físico, logo que as dores no corpo se tornaram suportáveis. Ela estava bem mais hesitante que eu. Temia que qualquer movimento mal calculado me pudesse aleijar. Eu parecia um Cristo, todo em chagas, mas estava ansioso por perceber se não tinha perdido todas as minhas capacidades. Ela ficava sempre por cima e esforçava-se o mais que podia, mas não havia nada de natural naquele acto. Ainda assim, eu tinha sempre prazer. Ela só muito raramente. Sei que só o fazia naquelas circunstâncias porque me amava de verdade. E era mesmo isso que eu queria que ela me provasse: que continuava a gostar de mim, apesar do que me tinha acontecido. Aproveitávamos as folgas de sexta ou sábado à noite, quando os nossos filhos adolescentes descobriam os encantos da vida nocturna, o efeito anestesiante do álcool e o entusiasmo dos primeiros amores. Naqueles momentos em que tentava voltar a sentir-me vivo, tinha uma inveja imensa dos meus filhos, donos da juventude e do vigor, locais longínquos aonde eu jamais poderia regressar.
Passaram mais de seis meses até que voltasse a conseguir pôr-me de pé. Foi uma longa caminhada feita de sessões caseiras de fisioterapia. Primeiro, na cama, comecei com movimentos simples, como tentar mexer os dedos dos pés. Mais tarde, o fisioterapeuta instalou, a partir do tecto, uma espécie de roldana com uma corda, que me permitia elevar à vez cada uma das pernas. A falta de estímulos musculares fez com que as minhas pernas atrofiassem. No dia em que reaprendi a andar, a minha família ficou boquiaberta ao notar a fraqueza das minhas pernas. Pareciam as de um miúdo subnutrido do continente africano.
Algum tempo antes, comecei a fazer progressos. Já conseguia permanecer sentado e com o apoio de uma cadeira de rodas pude voltar a circular pela casa. Com muitas limitações, é certo. Num apartamento minúsculo, as portas tiveram que ser removidas afim de eu poder passar. Ainda assim, era maravilhoso sair do quarto, ainda que fosse apenas para chegar perto da janela, espreitar o dia e voltar para trás.
Foi numa manhã de Verão que o fisioterapeuta chegou acalorado anunciando a boa-nova.
Saborear um fruto exótico pode ser uma experiência inesquecível mas longe do alcance de todas as carteiras Há quem diga que a melhor forma de conhecer um local e as suas gentes é deambular a pé pelas ruelas que se entrecruzam à nossa volta e visitar o mercado municipal. E foi isso mesmo que fiz no primeiro dia de visita ao Funchal. Saio do hotel, localizado no coração do centro histórico, e começo a atravessar ruas aleatoriamente. Começo por seguir pela principal e depois arrisco atalhos pelas perpendiculares, à procura de pessoas e de casas com portas e janelas entreabertas por onde possa espreitar. Liberto toda a curiosidade que se esconde em mim e dou-lhe trela. Quero que seja ela a puxar por mim e por isso deixo-me guiar pelo seu instinto. Sem que tenha andado mais de 500 metros, dou comigo à entrada do mercado municipal. Na fachada leio a inscrição “Mercado dos Lavradores”, mas depressa descubro que este mercado é sobejamente conhecido pelo mercado das flores. Basta atravessar o p...
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