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Conto "Choque frontal" - página 3

Muito antes dos bombeiros chegarem ao local, houve alguém que, sem querer, acabou por ser a primeira testemunha do sinistro. Soube mais tarde que era um homem e que, para minha sorte, era médico. Não teria sobrevivido até à chegada do socorro se aquela alma não se tivesse cruzado no meu caminho. Diz ele que, por estar em choque, eu estava a sufocar com a língua. Foi ele quem ma desenrolou evitando a asfixia. Se fosse crente, teria ficado a pensar que aquele homem foi um anjo que desceu à terra naquele instante para me salvar. Um minuto a mais poderia ter feito toda a diferença. Nos momentos que sucederam o acidente, muitos foram os carros que tiveram de parar junto à berma, imagino. Os destroços estavam de tal forma atravessados na via que não permitiam a passagem de qualquer veículo. A curiosidade mórbida foi-se aproximando. Sou capaz de imaginar quantas pessoas terão saído do carro para me espreitar, para assistir ao vivo à (minha) tragédia humana. Exposto como um espantalho, não espantava ninguém. Antes pelo contrário. As pessoas pareciam querer reunir-se à minha volta como abutres que anseiam por carne fresca. Um casal que habitava a casa branca sobre o monte também desceu à estrada. Marido e mulher foram acordados por um enorme estrondo que dizem ter pensado ser o de uma bomba a rebentar. Ainda dormiam quando às oito da manhã aquele ruído estridente de súbito os sobressaltou. No meio do aparato, devo ter desmaiado, pois já só me recordo muito vagamente de acordar no hospital. Enquanto estive inconsciente, sei que vários homens tiveram que serrar os destroços do carro para me tirar lá de dentro. Nem durante, nem depois, nunca pensei em mais ninguém que não fosse a minha mulher, os meus filhos e o fornecedor que havia de estar indefinidamente à minha espera. Nunca, nem por um segundo, me ocorreu que do outro lado da estrada pudesse estar um outro homem dentro de uma outra viatura. Hoje sei que já não era bem um homem. Quando finalmente fui retirado dos destroços com vida, a pessoa que conduzia o carro que chocou de frente com o meu era já um cadáver. Eu matei um homem? Eu terei matado uma pessoa? Posso não ter morrido naquele dia, mas sei que esta dúvida vai morrer comigo e perseguir-me em sonhos até aos dias do fim. Entrei em coma a caminho do hospital. Deve ter sido nessa altura que o telefone tocou. Do outro lado da linha, alguém tinha uma notícia má para dar à minha mulher.

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