Aqui, onde tudo parece feito de gelo, os dias arrastam-se vagarosos, como se não quisessem passar. No fundo, eles até têm pressa, mas correr cansa e os dias não estão para isso. Preferem rastejar como cobras que, sem hora marcada, um dia chegarão ao destino. Cada dia a mais é um dia a menos. Numa folha branca colada na parede, vêem-se pauzinhos riscados, de cinco em cinco, como os desenhados por um presidiário que conta os dias que faltam para a liberdade. Acordar e esperar. Trabalhar e esperar. Voltar e esperar. E ver a noite chegar, entrando pela janela, cada vez mais escura e fria, como uma punição. E antes que o dia volte a nascer, claro e quente, o desespero bate à porta e alguém o convida a entrar. Silencioso, ninguém dá por ele. Fica sentado no sofá, como um fiel cão de guarda que sabe lamber a ferida aberta que dói e faz chorar. A música que toca é sempre a mesma. A letra de cada canção conta uma história que não é a nossa, mas podia ser. Um cantor espanhol grita palavras bonitas num ritmo cigano. E tu, e tu aí. E eu, e eu aqui, tão longe e tão perto de ti. Há um livro abandonado a um canto faz dias. No seu silêncio de objecto consegue ouvir o pensamento de quem não o lê. Ideias cruzadas à velocidade da luz geram curto-circuitos mentais. O cinzeiro reclama de sujo. Cada cigarro, esmagado com a fúria com que se mata um insecto, depois de apagado não incomoda mais. Tantos canais e nada para ver. A televisão é só um conjunto de vozes que enche a casa, num cochicho que faz companhia. As ideias não fluem mais entre quatro paredes. Neste lugar claustrofóbico chamado casa, não há mais espaço para a falta de soluções. Basta! Não aguento mais. Amanhã vou entrar em acção.
Saborear um fruto exótico pode ser uma experiência inesquecível mas longe do alcance de todas as carteiras Há quem diga que a melhor forma de conhecer um local e as suas gentes é deambular a pé pelas ruelas que se entrecruzam à nossa volta e visitar o mercado municipal. E foi isso mesmo que fiz no primeiro dia de visita ao Funchal. Saio do hotel, localizado no coração do centro histórico, e começo a atravessar ruas aleatoriamente. Começo por seguir pela principal e depois arrisco atalhos pelas perpendiculares, à procura de pessoas e de casas com portas e janelas entreabertas por onde possa espreitar. Liberto toda a curiosidade que se esconde em mim e dou-lhe trela. Quero que seja ela a puxar por mim e por isso deixo-me guiar pelo seu instinto. Sem que tenha andado mais de 500 metros, dou comigo à entrada do mercado municipal. Na fachada leio a inscrição “Mercado dos Lavradores”, mas depressa descubro que este mercado é sobejamente conhecido pelo mercado das flores. Basta atravessar o p...

Comentários
Enviar um comentário
Se gostou deste artigo, ou tem uma palavra a acrescentar, agradeço imenso que deixe o seu comentário.