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Faz acontecer

Aqui, onde tudo parece feito de gelo, os dias arrastam-se vagarosos, como se não quisessem passar. No fundo, eles até têm pressa, mas correr cansa e os dias não estão para isso. Preferem rastejar como cobras que, sem hora marcada, um dia chegarão ao destino. Cada dia a mais é um dia a menos. Numa folha branca colada na parede, vêem-se pauzinhos riscados, de cinco em cinco, como os desenhados por um presidiário que conta os dias que faltam para a liberdade. Acordar e esperar. Trabalhar e esperar. Voltar e esperar. E ver a noite chegar, entrando pela janela, cada vez mais escura e fria, como uma punição. E antes que o dia volte a nascer, claro e quente, o desespero bate à porta e alguém o convida a entrar. Silencioso, ninguém dá por ele. Fica sentado no sofá, como um fiel cão de guarda que sabe lamber a ferida aberta que dói e faz chorar. A música que toca é sempre a mesma. A letra de cada canção conta uma história que não é a nossa, mas podia ser. Um cantor espanhol grita palavras bonitas num ritmo cigano. E tu, e tu aí. E eu, e eu aqui, tão longe e tão perto de ti. Há um livro abandonado a um canto faz dias. No seu silêncio de objecto consegue ouvir o pensamento de quem não o lê. Ideias cruzadas à velocidade da luz geram curto-circuitos mentais. O cinzeiro reclama de sujo. Cada cigarro, esmagado com a fúria com que se mata um insecto, depois de apagado não incomoda mais. Tantos canais e nada para ver. A televisão é só um conjunto de vozes que enche a casa, num cochicho que faz companhia. As ideias não fluem mais entre quatro paredes. Neste lugar claustrofóbico chamado casa, não há mais espaço para a falta de soluções. Basta! Não aguento mais. Amanhã vou entrar em acção.

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RECONFINAMENTO - III

Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

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Acabei por tornar-me naquilo que nunca quis ser: um funcionário alfanumérico de uma dessas empresas capitalistas para quem os trabalhadores são descartáveis e insignificantes. Por mais que faça, ou seja capaz de fazer, não valho muito mais que um salário mínimo. Que motivação esperar de mim superior a q.b.? Picar o ponto, numa pontualidade milimétrica, ser paciente face à impaciência alheia, e sorrir, quando nada mais puder, face à inversão dos sonhos acalentados num passado de onde ainda vislumbrava futuro. 

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Quando a minha avó me levava ao parque, eu tinha cinco anos e ainda sabia ser feliz. A avó levava sempre a minha mão bem apertada pelo medo de não me deixar fugir. Esses dias eram sempre finais de tarde de verão, daqueles que o Sol gosta de prolongar até que resolve esconder-se. Depois de jantar, lá íamos nós, rua acima, pela fresquinha – como ela dizia – agradada com a brisa que antecede o anoitecer. Lá em casa, jantávamos cedo, às seis da tarde já a comida estava na mesa. Era assim por causa do avô. Ele chegava das obras com a roupa e as botas pesadas de cimento e tomava sempre banho antes de ocupar o seu lugar cativo à mesa. Depois, com as mãos espessas e ásperas de tanto acartar baldes de massa, cortava uma fatia de pão. Vida dura a do avô. As obras começavam sempre cedo, sobretudo no verão, para fugir à braseira estival. Vida dura a da avó. Uma vida feita de espera e de cuidar dos outros. Mas nem um lamento. Daquela boca só saíam jóias e rebuçados. Daquelas mãos, só carinho. Da...