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Sevilha baila nas margens do Guadalquivir

Praça de Espanha


Sevilha é uma cidade por onde apetece passear e onde apetece viver. Logo à entrada da capital Andaluza, há requintes de perfeição que fazem os olhos sorrir. Quem cuida da cidade, sabe fazê-lo com mimos de mãe de menina. Como se fossem laços de adornar cabelos, há canteiros e colunas de vasos multicoloridos em cada praceta ou separador central da estrada que nos dá as boas vindas. O rio, de um gordo caudal esverdeado, corta ao meio a cidade, hoje unida por pontes que ligam passado e futuro. Ontem Bétis, de onde partiram naus rumo ao Novo Mundo, hoje Guadalquivir, por onde se passeiam barcos que fazem encher o olhar dos turistas de uma beleza panorâmica.

Guadalquivir

Mais do que grande, Sevilha é grandiosa, monumental. Tanto há a visitar que um só dia não chega. Mas fica o gosto de aperitivo. Abeirada ao rio, a Torre do Ouro ainda o vigia. Desta atalaia garantia-se a cidade a salvo das invasões inimigas. Agora museu marítimo, pode ser visitada e recomenda-se uma subida ao miradouro. De lá, pode assomar-se, majestosa, a catedral em todo o esplendor dos seus pináculos erguidos ao céu.
Catedral de Sevilha

Percorremos as ruas em modo pedestre e passam por nós bicicletas. Há ciclovias e pontos de aluguer por toda a cidade. A planura do chão convida a passeios em duas rodas. Um pouco adiante, cidade velha avante, o som monárquico dos cascos contra a calçada anuncia a passagem de mais um coche. Formosos cavalos brancos puxam elegantes carroças de estofos pretos e grandes rodas pintadas de amarelo. Da arquitectura à paisagem, em Sevilha tudo exibe rigores de acabamento manual. Dos varandins em ferro minuciosamente trabalhados aos vasos de flores nas janelas, há uma inesgotável obsessão pelo detalhe, uma luta cega pela perfeição que todo o turista agradece. Populosa mas organizada, cosmopolita mas histórica, na cidade impera a ordem, reina a limpeza, o que enobrece a beleza de cada pormenor.
 
Entramos na Catedral de Sevilha. Vale a pena visitar o maior templo gótico do mundo, distinguido pela UNESCO como património da humanidade. Lá fora, ficaram mulheres com ar de ciganas que nos seduzem com rosmaninho. “Un regalo”, anunciam de raminho na mão, mirando de seguida ganhar uns trocos a ler-nos a sina. Cá dentro, sentimo-nos pequenos, esmagados pela grandiosidade das cúpulas, vitrais e peças de arte sacra feitas num tempo em que os homens não tinham pressa. Uma pausa para almoço. Comemos paelha e filetes de pescada, para fugir às tradicionais tapas. Ao contrário do que se diz, aqui não se come mal. Só não há moderação no consumo de fritos e os nossos estômagos reclamam. O início da tarde apanha-nos de barriga cheia. De volta à rua, um calor molengão só convida à preguiça. Aqui em Sevilha, o bafo vespertino é como um sopro africano que só esmorece à sombra de uma árvore centenária ou diluído num copo de bebida gelada. E ainda só é Primavera… Fugimos à brasa, refugiando-nos no acolhimento do Real Alcazar. O piso térreo e os jardins dos aposentos reais podem ser visitados e admirados. De inequívoca influência árabe, o palácio detém um estilo inconfundível de rara beleza.



Real Alcazar
De regresso ao ar livre, deambulamos pelos labirintos arabescos que formam as ruelas do bairro de Santa Cruz. Aqui o sol não entra. Há vielas com pouco mais de um metro de largura. O ar é mais fresco rente a estas casas de paredes brancas e janelas floridas. Aqui e acolá há lojas de portas abertas vendendo “recuerdos”. Porta sim, porta sim, há aventais aos folhos, castanholas e leques que acenam a quem passa, à espera de um freguês que os leve. Quase tudo o que podemos levar de recordação nos remete para as populares sevilhanas. As morenas “guapas” que rodopiam folhos batendo saltos, abrindo e fechando leques em trejeitos sensuais, continuam a ser o ícone da cidade. Já falta pouco para a luz do dia começar a esmorecer, mas ainda há tempo para mais duas paragens emblemáticas. Sempre a pé, atravessamos as amplas avenidas, onde nunca faltam os espaços verdes, e chegamos à entrada do Parque Maria Luísa. Um imenso pulmão no coração da cidade, de onde emerge a monumental Praça de Espanha. Não dá para descrever, é preciso ver para dignificar o sentido do belo, a harmonia estética que, à semelhança da mãe natureza, só a arquitectura sabe conceber. Despedimo-nos desta breve visita admirando o tesouro mais adorado de Sevilha. A virgem da esperança, designada “La Macarena”, está exposta na Basílica com o mesmo nome e só sai à rua na madrugada de sexta-feira santa, na procissão mais popular e fervorosa de Espanha. Ainda não é noite e temos pena de partir. Ao vermos Sevilha ficar para trás sobra-nos a vontade de regressar. Esta cidade merece tempo para ser olhada e recordada até à impossibilidade do esquecimento.

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