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Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam*


Alice acaba de ver um filme inspirador e detém-se a pensar. No conforto silencioso da sua casa, a madrugada vai entrando sem trazer o sono. Traz porém lembranças de dias distantes, que parecem agora mais próximos que nunca à meia-luz do candeeiro de canto que confere à sala um calor de lareira improvisado. A Primavera, já anunciada, faz-se demorar com requintes de malvadez, para gáudio do pijama e das meias de lã que persistem colados ao corpo como as ideias à mente. “Quantas pessoas conheço hoje que não faziam parte da minha vida há cinco anos?”, pensa subitamente Alice, de si para si, tentando vislumbrar rostos através da ténue cortina do pensamento. E não tarda em irromper uma miragem daquele sorriso, hoje tão presente, daquele semblante com cheiro a beleza que agora lhe preenche os dias. E como pipocas a saltar do tacho, começam a explodir nomes e faces e vozes de todas as pessoas que ontem não eram sequer personagens imaginárias e hoje são presenças de carne e osso. Ligadas por um traço comum, todas surgiram no seu caminho por mero acaso, reflete Alice. Sem que tivesse feito o menor esforço para as encontrar, cada uma daquelas vidas cruzou-se com a sua num qualquer instante sem hora marcada. Bastava que no dia x não tivesse escolhido o caminho z e tudo teria sido diferente. Agora, fora do tempo em que os encontros acontecem, cada uma daquelas pessoas revelava-se uma valiosa peça de um enorme puzzle em construção. Como um novelo desenrolado, as ideias foram rebolando pelas horas tardias. “Se eu não tivesse conhecido o José, não teria feito aquela viagem. E se não tivesse feito aquela viagem jamais teria conhecido a Maria que hoje me faz tão feliz”, lembra-se de ter pensado antes de cerrar as pálpebras sobre os olhos. E foi coberta pela manta de pensamentos que adormeceu desengonçada no sofá. E foi quentinha que se ergueu, livre de dores e rabugice, despertada pelos beijos da manhã, ternamente pousados no seu rosto pelos primeiros raios de sol. *José Saramago, O livro dos itinerários, epígrafe de “A viagem do elefante”.

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