Avançar para o conteúdo principal

CLARIVIDÊNCIA

Tudo me parece agora tão claro, como se finalmente tivesse escancarado as janelas da existência. Lá fora, a vida nunca deixará de ser um caos. O desafio é ser-se, dentro, caminho de harmonia, nascente de beleza, ponte entre as mãos que desejam unir-se. Agora compreendo que não posso, não devo, nem quero, agradar ao mundo inteiro. Essa será sempre a mais impossível e inglória das missões. O importante é a fidelidade aos meus princípios, aos meus propósitos, à verdade e liberdade que nasci para ser. A bondade dos meus gestos confirma-se nos que me rodeiam ficando sempre. Os outros desconhecem-me e não se pode amar quem não se conhece. Tudo o que fui e já não sou ensinou-me o essencial para persistir. No jogo da vida, não vale desistir, nem fazer batota. Perder ou ganhar é intermitentemente relativo. Só a distância temporal permite ajuizar resultados. A procura é inútil quando não sabemos quem somos. E tudo nos encontra quando arrumamos os medos e ressoamos confiança. Ao voltar a soprar as velas, é enorme a gratidão e são cada vez menos os desejos. Que a vida me ofereça mais tempo de cura e silêncio entre batalhas. E que o amor adormecido regresse, devidamente oxigenado, em múltiplos abraços beijados, depois de se abolirem as máscaras.



Comentários

  1. Belíssima prosa!
    A autenticidade e a veracidade conjuntamente com a maturidade são a fonte a sabedoria, concordo, assim como estou de acordo com a esperança que alimenta o sonhador que tem sempre a vontade de bem fazer!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Se gostou deste artigo, ou tem uma palavra a acrescentar, agradeço imenso que deixe o seu comentário.

Mensagens populares deste blogue

RECONFINAMENTO - III

Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

VERSÃO 4.5

Dizem-me frequentemente que ainda tenho cara de menina, que ainda sou nova, que ainda tenho a vida à minha frente. Contudo, face à cronologia, é-me inevitável constatar que mais de metade do tempo que me foi concedido já passou. O que me resta já será provavelmente menos. Se isso me inquieta? Não em termos de medo, mais em termos de pressa. Já não é pressa de viver mas de realizar, de me realizar. Apesar de já ter plantado árvores, tido filhos e publicado livros, sinto-me ainda distante da potencialidade plena do meu propósito existencial. O que me falta realizar então? Talvez plantar mais árvores e escrever mais livros, já que a possibilidade de gerar filhos tem prazo de validade e a energia vital para os cuidar vai esmorecendo. Tudo o que me falta fazer parece-me tanto para o tempo que imagino à minha frente. Não cabem tantos livros e filmes e viagens e experiências nas décadas que imagino ainda poder viver. O meu maior conflito interior neste momento é já não ser nova para tanta coi...

SONHOS INVERTIDOS

Acabei por tornar-me naquilo que nunca quis ser: um funcionário alfanumérico de uma dessas empresas capitalistas para quem os trabalhadores são descartáveis e insignificantes. Por mais que faça, ou seja capaz de fazer, não valho muito mais que um salário mínimo. Que motivação esperar de mim superior a q.b.? Picar o ponto, numa pontualidade milimétrica, ser paciente face à impaciência alheia, e sorrir, quando nada mais puder, face à inversão dos sonhos acalentados num passado de onde ainda vislumbrava futuro.