Todos te veem, e até fingem gostar de ti, mas ninguém repara na tua solidão. Espreitam o cintilar áureo dos teus dias, ignorando a escuridão do teu quarto. Ninguém imagina a profundidade da caverna dos teus medos, ninguém sabe onde escondes o baú dos teus segredos, ninguém sonha a lonjura do refúgio ermo dos teus sentimentos. Até que alguém ouse dar-te a mão, arriscando percorrer contigo os labirintos mais estreitos, com coragem para provar do melhor e do pior, até descobrir o teu ponto de equilíbrio e aí reconhecer o tanto que és.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.
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