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Mensagens

Destroços vitais

Olha à tua volta e repara: quantas inutilidades acumulas em teu redor? Ruínas de amores defuntos, mensagens com respostas impossíveis, objectos sem estante, roupas triplicadas eternamente sem uso. É assim a vida, sempre tão desarrumada. Ideias que não cabem em gavetas, demasiados assuntos sem espaço ou resolução. Terás sempre as janelas por onde podes escancarar-te em gritos de liberdade. Queres ser mais feliz? Rasga papel e oferece-o ao vento. Despe o guarda-roupa e agasalha os pobres. Limpa todos os teus recantos, escorraçando as estorvas memórias de pessoas e tempos irrepetíveis. Mais leve, abandonado de ruídos, caminharás no equilíbrio do silêncio e todos os teus pensamentos serão paz.  

A justiça (não) é cega

Depois da liberdade, a justiça é a dignidade maior que um homem pode experimentar. Que a vida é injusta e que o mundo é dos espertos, somos ensinados a crer. Mas há sempre um dia em que a esperteza não chega, a astúcia é traiçoeira, a raposa cai no seu próprio ardil e se faz jus à mais inocente das criaturas. Porque a verdade é lei, a mentira deve-lhe obediência.          

Redenção

Queria confessar-te que os sinos tocaram dentro de mim naquela noite. Desde o primeiro instante, olhei-te com um afecto inusitado, sem lugar para porquês. Surgiste como uma aparição. Um rosto divino tão harmonioso em todas as suas humanas imperfeições. Meio homem, meio Deus, digno de um pedestal. A ti dirijo a minha prece ajoelhada que em silêncio grita o teu nome, redentor. 

Reportagem # 55

"Dica da Semana", edição regional Algarve, 17 de Março 2016

Declaração de amor maternal

Gostava de saber dizer tudo o que és e o que significas para mim. Mas todas as palavras me parecem tão pequenas que te abreviam. Ao olhar-te, neste amor crescente que só as mães conhecem, ainda me espanto com a grandeza do milagre que fui capaz de gerar. Todos os dias me ajudas a revelar o melhor de mim. Ensinas-me a paciência, ao ritmo das brincadeiras que nunca podem esperar. És criança agora e tenho de aprender a respeitar esse tempo, efémero e irrepetível, do qual vou ter tantas saudades. São as tuas prioridades que pautam as minhas rotinas. São as tuas vontades que despertam a minha energia. Todos os dias confirmo que para uma mãe não há limites de força e coragem. E quando me sinto fraquejar, és o meu ombro e o meu colo e a mão que me resgata para a vida. A paz do meu sono depende unicamente do doce respirar da tua pele. É assim que me despeço dos dias. Inalo-te e adormeço feliz, há oito anos.  

Reportagem # 54

"Dica da Semana", edição regional Algarve, 25 de Fevereiro 2016

A linguagem gestual da vida

Viajo não sei para onde, ignorando quem me espera. Só o destino saberá guiar-me. Nesta longa jornada, tantas vezes de pés descalços, incomodam-me as feridas mas não posso parar. Abrando, volta e meia, apenas para respirar tempo. E de ares renovados, sigo viagem.  Não por estrada direita, prefiro os trilhos de curva e contra curva de terra batida. Afinal, pés calejados aguentam tudo e por aqui a vida parece tão mais bonita. Tem cor e cheiro e mais sabor. Em cada árvore encontrada, provo um fruto e saboreio prazeres. Que delícia a liberdade de calcorrear a vida sem pressa nem medo. Neste constante diálogo surdo-mudo, falta-me aprender a linguagem gestual da vida. Preciso saber decifrar que respostas me revelam os silêncios com que me vou cruzando.