Avançar para o conteúdo principal

Conto "Choque frontal" - página 5

- Sr. Eusébio, já acordou? – Irrompeu uma voz feminina quarto adentro. Enquanto pestanejava, esforçando-me por permanecer com os olhos abertos, vislumbrei uma mulher loira de bata branca. A enfermeira Elsa era uma jovem na casa dos trinta anos, com bons modos e muito bom aspecto. Saudei a sua presença com um gemido, a única forma confortável de me manifestar. E ela continuou a fazer-me perguntas de circunstância, sabendo de antemão que as respostas seriam pouco mais que lamentos monossilábicos. - Então, como é que se sente? Está com dores? Quer que lhe molhe os lábios? Eu assenti piscando os olhos repetidamente como se quisesse acenar com a cabeça. Tinha a boca tão seca que até a língua parecia feita de borracha. Delicadamente, ela mergulhou dentro de um copo de água a compressa enrolada num pauzinho de madeira e começou a humedecer-me os lábios. Ia começar a fazer um esforço para tentar falar quando ela me dissuadiu: - Não se canse, Sr. Eusébio. Procure descansar. Não se preocupe que nós estamos aqui para tratar de si. Depois disso, trocou a saqueta de soro, ajeitou-me os lençóis e mediu a temperatura colocando-me o termómetro digital dentro do ouvido. Vi-a tirar uma série de apontamentos, antes de se retirar. - Até já, Sr. Eusébio. Daqui a pouco o doutor já vem fazer a ronda. Aos poucos fui voltando a tomar consciência do meu corpo. Sentia os braços e as pernas amarrados. Quando o médico veio por fim visitar-me, percebi que estava parcialmente engessado. Num tom cheio de formalidades, informou-me que tinha já sido operado a múltiplas fracturas expostas e que numa delas, localizada na perna esquerda, havia uma espécie de armadura de ferros que me atravessava o osso de lado a lado. Eu estava fragilizado e os médicos esconderam-me o pior dos diagnósticos. Fiquei a saber mais tarde que todos eles achavam que eu estava condenado a ficar refém de uma cadeira de rodas para sempre. Felizmente, a medicina às vezes também se engana a nosso favor. Lá fora, no mundo real, a vida continuou sem mim. Os meus filhos regressaram à escola e a minha mulher teve que assumir o comando da nossa empresa. Que remédio, ser patrão tem por vezes um sabor agridoce. Ainda mais quando se tem um negócio de família de onde provém todo o sustento. Temos todo o poder nas mãos, mas nem quando fraquejamos o podemos largar. Se o fizermos, não há colchão que ampare a queda. Desistir nunca é uma opção. Surpreendeu-me a minha mulher. O medo fê-la superar-se pela primeira vez na vida. O medo e o amor, de mãos dadas, a provar que são as únicas alavancas que nos movem, que nos fazem tomar decisões, mesmo quando não sabemos o que fazer. Psicologicamente apoiada nos livros de auto-ajuda, que tanto gostava de ler, ela lá foi repetindo e colocando em prática as máximas que melhor se enquadravam à situação. “É melhor decidir mal do que não decidir”, repetia todos os dias, como um mantra, antes de qualquer passo mais hesitante.

Comentários

Enviar um comentário

Se gostou deste artigo, ou tem uma palavra a acrescentar, agradeço imenso que deixe o seu comentário.

Mensagens populares deste blogue

Noventa euros em frutos tropicais

Saborear um fruto exótico pode ser uma experiência inesquecível mas longe do alcance de todas as carteiras Há quem diga que a melhor forma de conhecer um local e as suas gentes é deambular a pé pelas ruelas que se entrecruzam à nossa volta e visitar o mercado municipal. E foi isso mesmo que fiz no primeiro dia de visita ao Funchal. Saio do hotel, localizado no coração do centro histórico, e começo a atravessar ruas aleatoriamente. Começo por seguir pela principal e depois arrisco atalhos pelas perpendiculares, à procura de pessoas e de casas com portas e janelas entreabertas por onde possa espreitar. Liberto toda a curiosidade que se esconde em mim e dou-lhe trela. Quero que seja ela a puxar por mim e por isso deixo-me guiar pelo seu instinto. Sem que tenha andado mais de 500 metros, dou comigo à entrada do mercado municipal. Na fachada leio a inscrição “Mercado dos Lavradores”, mas depressa descubro que este mercado é sobejamente conhecido pelo mercado das flores. Basta atravessar o p...

Quando a avó me levava ao parque

Quando a minha avó me levava ao parque, eu tinha cinco anos e ainda sabia ser feliz. A avó levava sempre a minha mão bem apertada pelo medo de não me deixar fugir. Esses dias eram sempre finais de tarde de verão, daqueles que o Sol gosta de prolongar até que resolve esconder-se. Depois de jantar, lá íamos nós, rua acima, pela fresquinha – como ela dizia – agradada com a brisa que antecede o anoitecer. Lá em casa, jantávamos cedo, às seis da tarde já a comida estava na mesa. Era assim por causa do avô. Ele chegava das obras com a roupa e as botas pesadas de cimento e tomava sempre banho antes de ocupar o seu lugar cativo à mesa. Depois, com as mãos espessas e ásperas de tanto acartar baldes de massa, cortava uma fatia de pão. Vida dura a do avô. As obras começavam sempre cedo, sobretudo no verão, para fugir à braseira estival. Vida dura a da avó. Uma vida feita de espera e de cuidar dos outros. Mas nem um lamento. Daquela boca só saíam jóias e rebuçados. Daquelas mãos, só carinho. Da...

Quatro Primaveras

Sou tua mãe mas não te vi nascer. Pode parecer estranho, mas foi assim que aconteceu. Há quatro anos, era de noite. Ainda não era Primavera, mas estava um clima ameno, primaveril. No relógio de parede, o ponteiro pequeno estava fixo no número um e o grande apontava para o oito. Eram uma e quarenta da manhã de terça-feira, dia 11 de Março de 2008. Quando choraste pela primeira vez, eu não te ouvi. Ferrada num sono profundo, não te ouvi, nem te vi, nem peguei em ti ao colo, nem chorei de felicidade por sentir uma emoção nova, tão rara, que pode acontecer uma única vez, ou poucas vezes na vida. Lamento não ter sentido as dores. Lamento, ainda mais, não ter conhecido a explosão de emoções que as sucedem. Estava anestesiada, esventrada e longe do meu bebé. Lamento tudo isso, mas sei que foi por bem. Os corpos escondidos por detrás de todas aquelas batas brancas, sem nome, sem voz, quase sem rosto, salvaram-te a vida. Bendita seja a medicina. Despertei nauseada, horas depois. De um lado, e...