Olha à tua volta e repara: quantas inutilidades acumulas em
teu redor? Ruínas de amores defuntos, mensagens com respostas impossíveis, objectos
sem estante, roupas triplicadas eternamente sem uso. É assim a vida, sempre tão
desarrumada. Ideias que não cabem em gavetas, demasiados assuntos sem espaço ou
resolução. Terás sempre as janelas por onde podes escancarar-te em gritos de
liberdade. Queres ser mais feliz? Rasga papel e oferece-o ao vento. Despe o
guarda-roupa e agasalha os pobres. Limpa todos os teus recantos, escorraçando as
estorvas memórias de pessoas e tempos irrepetíveis. Mais leve, abandonado de ruídos,
caminharás no equilíbrio do silêncio e todos os teus pensamentos serão paz.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

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