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Uma dezena de milagre

11 de Março de 2008

Tento imaginar a vida sem ti, num exercício impossível de quem procura reviver uma existência passada. Tudo parece ter nascido depois de ti. Até mesmo eu. Antes, talvez apenas existisse. Só depois de experimentar a extraordinária magia da multiplicação da carne é que aprendi a viver. Minha filha, és a única. Uma dezena de anos depois, continuas a ser a única pessoa que um dia me habitou. Poupando-me a gemidos e dores, conquistaste a tua liberdade, numa irrepetível madrugada de Março, dia 11, no calendário de um primaveril 2008. Só tu me abraças como se abraça o tempo, num aperto de eterno reencontro. Só tu, versão refinada de mim, consegues ser a superação da minha limitada e frágil existência. Disfarçada de criança, és a pura beleza da inteligência ingénua. Palpitando ideias geniais, és promessa diária de futuro. Brotando como uma flor, és a certeza de um amanhã que dará árvores de fruto. Quando sorris, és a esperança renovada de dias melhores. A cada centímetro do teu crescer, em tamanho, graça e sabedoria, és evolução, és prolongamento, és continuidade, és progresso, plenitude e eternidade. Na transcendência da minha mortalidade, és o melhor de mim. Se pudesse pedir um só desejo, queria reviver tudo de novo. Ver-te emergir das minhas entranhas e amar-te mais e mais e ainda mais. Devagar. Bem mais devagar. Ao ritmo de uma câmara lenta. Outra e outra vez.  

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