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domingo, 17 de junho de 2012

Olá minha querida!

Passávamos tardes inteiras a conversar e a beber chá. Eram sempre tardes de Domingo, fosse Verão ou Inverno. Eram sempre tardes em que eu poderia estar em qualquer outro lado a fazer qualquer outra coisa, mas preferia estar ali. A sua companhia fazia-me bem. Eu podia combinar o encontro, ou aparecer de surpresa, que ela estava sempre lá à minha espera. Tocava à campainha e podia ter que esperar mais de um minuto até que a porta se abrisse. Durante esse compasso de espera, podia imaginá-la a caminhar a custo pelo corredor. Ao contrário do cérebro, há muito que o corpo começara a sucumbir ao peso da idade. Afinal já são 91 quilos, dizia ela com graça, referindo-se aos seus longos anos de vida. Recebia-me sempre com o afecto maternal com que sabia tratar toda a gente. Talvez por nunca ter sido mãe, tinha o gesto espontâneo de adoptar todos os que lhe eram queridos. Partilhava afecto com o mesmo à vontade com que distribuía tudo o que tinha. Sem agenda, nem os lembretes electrónicos dos tempos modernos, nunca esquecia um aniversário. E quando não tinha dinheiro, oferecia objectos, um livro antigo, qualquer coisa que tivesse à mão, numa espécie de distribuição de herança antecipada. Primeiro, sentávamo-nos no sofá, lado a lado. Ela pegava-me na mão e não a largava enquanto conversávamos. E eu podia sentir a frescura da sua pele fina rente aos ossos. Volta e meia, abraçava-me, puxando-me contra o rosto. E eu podia sentir o aroma sempre asseado da sua roupa preta, de um luto que carregava há anos pelo marido. Repetia vezes sem conta, como se sentia feliz por me ver, tomada talvez pelo receio de nunca saber se aquela seria a última vez. Por volta das cinco da tarde, era a hora do chá. Fazia questão de se levantar para ir pôr o púcaro ao lume. Era um púcaro velhinho, onde colocava água e uma mistura de ervas secas a ferver. O armário da sala escondia sempre latas de bolachas e bolinhos que saltavam para a mesa com honras de festa. Muitos já sabiam a mofo, outros tinham passado da validade, mas ela nem reparava, tal era a ânsia de oferecer o que tinha. Ah, Carlota, que saudades! Há dias em que me lembro muito de si. Lembro-me de me ter telefonado naquela quinta-feira de uma tarde de Março: - Olá minha querida! Aquela saudação sempre tão simpática ainda me ecoa no pensamento. Ao ouvi-la fiquei subitamente aliviada. No início da semana tinha sonhado com um velório. Carlota estava deitada num caixão e em redor todos os amigos lamentavam a sua morte. (Nunca lhe contei isto, como é óbvio). Lembrei-me do velho ditado que aprendi na infância: sonhar com a morte, traz anos de vida para a pessoa. Na manhã seguinte, andava por casa quando o telefone tocou. Atendi. Dou outro lado, a minha mãe atalhou: - Já sabes? - O quê? – Respondi a medo, antevendo algo ruim. - Morreu a prima Carlota. Em silêncio, não consegui conter as lágrimas. Mais presente do que nunca, a voz voltava a ecoar: - Olá minha querida! Horas antes, como se pudesse pressentir a morte, ela despediu-se de mim. Dias antes, como se pudesse pressentir a morte, eu sonhei com ela. Chamávamos-lhe prima Carlota, num parentesco que se estendia por quatro gerações. Na verdade, ela era prima irmã da mãe do meu avô materno. Para mim, foi mais uma avó, sempre presente, até hoje, até sempre.

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