Avançar para o conteúdo principal

Terreno fértil

Não sou tão forte como imaginas.
Aliás, eu não sou nada do que imaginas.
Sou apenas eu:
Uma mulher simples que busca a cada instante o conforto dos afetos e o êxtase das realizações. Tão simplesmente isso. Nada de extraordinário, pois não?
Que mais te poderei dizer sobre mim?
Que choro muitas vezes, sempre às escondidas e em silêncio, só para não explodir e incomodar alguém? Que o riso me nasce com a mesma força, de origem espontânea, e esse não consigo conter? É que a alegria, quando me vem, transborda-me. E não tenho outra hipótese senão espalhá-la, partilhá-la, multiplicá-la em meu redor. Parece-me justo: ser egoísta na tristeza, guardá-la só para mim, e caridosa na alegria, repartindo-a com o mundo.
Não sou um ser imaginário e intocável. Sou apenas semente. Se eu quiser e deixar, podes tocar-me, plantar-me, regar-me. Se tiveres esse dom de lavrador, estou certa, no nosso cantinho de terra, amanhã ou depois, hão-de nascer maravilhas.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

RECONFINAMENTO - III

Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

Continuas a fazer anos, sem envelhecer…

Não me esqueci. Como poderia esquecer-me? Hoje farias 60 anos e só o cabelo grisalho denunciaria a tua idade. Sempre pareceste muito mais novo, exibindo uma saúde férrea de espalhar inveja. Não fosse aquela maldita doença e ainda aqui estarias, a massacrar-nos com o teu mau feitio militante. Quando alguém parte cedo demais, até os defeitos deixam saudades. A implicância com coisas menores era o teu forte. Por vezes, parecias possuir superpoderes e exigias o mesmo heroísmo de todos em teu redor. Não eras o amor perfeito mas um grande companheiro de viagem. Não eras um educador exemplar mas um pai dedicado e carinhoso. Eras um pai-avô, como te autoproclamavas, depois de teres repetido a experiência pela quarta vez aos 50 anos. Nesse dia, há dez anos, visitámos o Oceanário e à saída tirei-te uma fotografia. Tinhas um bebé de três meses ao colo. De olhos cerrados, beijavas-lhe a testa, inspirando amor. Era o teu “brotinho”, dizias tu. Era o “nosso tesourinho”, dizia eu. Como o tempo pas...

FRIDAY EATS

A refeição que pedala a rua à minha frente vai saciar o cansaço de alguém que trocou horas de fome por uns tostões. A energia que sobra é a da ponta dos dedos. Três toques no ecrã e o jantar está pronto. A marmita verde atravessa a cidade, pela força estoica do homem que não fala português. Também não precisa. Basta tocar à campainha e dizer a palavra mágica de significado universal. Num silêncio solene, digno de um requintado mordomo, abre o saco térmico e serve o jantar. O pobre senhor que ganha uns tostões, hoje sente-se um rei. Espreguiçado no sofá, a lambuzar-se num menu cancerígeno qualquer, reencontra um espasmo de felicidade. Ah, como é boa a sexta-feira! Mham