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ANTES E DEPOIS DE MIM

"Se um dia o sol explodir, ninguém saberá que Vergílio escreveu a Eneida". A frase de Saramago, ressoa dentro de mim, desde o documentário "José e Pilar". Tudo o que fazemos vai desfazer-se. Tudo o que escrevemos vai apagar-se. Os livros podem arder, o digital colapsar, a memória perder-se no infinito do tempo. Porque escrevemos afinal? Masoquismo, talvez? Ou pura incapacidade de nos saciarmos com a experiência de existir. Só sei que este vício de trocar tudo por palavras já nasceu comigo. Comecei logo no útero materno a magicar como haveria de contar a metaformose a que me sujeitei para aqui chegar: humana, imperfeita, gemendo de dores e dúvidas e medos, sempre a sonhar com uma felicidade que nunca chega. Valham-me os livros que me têm salvo a existência no deleite de cada página. Abençoadas sejam as palavras que me permitem descodificar o significado de tantos dias abstratos. Louvada seja a palavra escrita, capaz de dissolver as mágoas e perpetuar o eco feliz das gargalhadas. Hei-de morrer antes da literatura, depois de a ter multiplicado, ainda que o sol possa escrever o seu fim.


(Publicado na revista ESPÚRIA, maio 2023)

 



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