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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Domingo de Sol

- Está um dia tão bonito, aonde é que queres ir? A língua entorpece-me de raiva sempre que me obrigam a responder a esta pergunta. Só me ocorre Paris, Nova Iorque, Rio de Janeiro, ou muitos outros sítios bem longe daqui, onde sei que não é possível ir de imediato. - Sei lá, decide tu. E é o suficiente para que subitamente surjam trovões num céu imaculadamente limpo. Chave no carro, primeira metida, vrrrrmmmm, aqui vamos nós. - Esquerda ou direita? Silêncio. Olhares suspensos na brisa que atravessa o tablier. - Vira para qualquer lado ao calha e vai andando, logo se vê. Palavrões mudos retidos na boca. Mais silêncio. Fecham-se os olhos debaixo dos óculos de Sol e respira-se fundo. O carro ganha velocidade de Domingo, pouco mais que dois cavalos. Num arrastar suave, espreitam-se as vistas que passam pela janela em câmara lenta. Sempre as mesmas ruas, sempre as mesmas casas. As pessoas mudam, mas ainda assim parecem todas iguais. Exibem trajes domingueiros, uma camisola nova comprada em saldo. Os meninos arejam as bicicletas e as meninas dão uso aos sapatinhos de verniz. Rostos pobres de sorrisos gordos nunca pareceram tão felizes refastelados esplanada sim, esplanada sim. Bebem a bica, pedem um copo de água e levam duas horas a fazer a digestão, a tricotar a vida alheia e a fumar cigarros. Está um lindo dia e não há nada de mais interessante para fazer. Vamos apenas admirar o Sol. Olhamos para ele, erguemos as mãos atrás da nuca e sorrimos todos contentes. A vida é bela. O carro continua às voltas e o meu corpo permanece inerte, como morto. Estou longe, muito longe. O pensamento voa. Entretanto já embarcou noutra viagem. Que bom podermos sonhar. Sentir uma fina película despegar-se do corpo e vê-la seguir o seu caminho rumo ao ponto idealizado. Desço à terra. O carro pára. Bebo um café e só me apetece regressar a casa. Ligo a TV. Um anúncio. - A felicidade vem de dentro (de casa). Sento-me tranquila a ler um livro. No sofá, admiro os últimos raios de Sol que atravessam a janela da sala. Sorriso silencioso assentido com a cabeça. Concordo inteiramente com a frase. E não é que me sinto tão bem aqui num dia cheio Sol. Tão bem como se lá fora não se pudesse andar por tamanho dilúvio.

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