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quinta-feira, 7 de março de 2013

Irmãs de sangue


Quem nos visse juntas julgava-nos irmãs. A mesma estatura, os mesmos cabelos longos, o mesmo estilo de vestir, Levi’s e All Star de todas as cores, os mesmos ideais. Sonhávamos ser arquitectas e estudávamos para isso. Noites e noites em claro, a mesa coberta de folhas A3, lápis de várias durezas a rolar sobre o papel, borrachas brancas, réguas, esquadros e compassos misturados, os teus e os meus. Toda a geometria descritiva começava numa linha de terra de onde sabíamos fazer crescer polígonos. Régua e esquadro alinhados, lápis bem afiados, um ponto que se ligava a outro multiplicando a magia traço a traço. A cada exercício perfeito, esboçávamos sorrisos tão imaculados quanto as folhas limpas de borrões. Ouvíamos músicas calmas e nos intervalos desabafávamos os desamores. Lembras-te daquele meu primeiro amor que se apaixonou por ti enquanto tu não conseguias esquecer aquele rapaz que namorava com a miúda mais gira da escola? Porque é que os amores andam sempre tão desencontrados, perguntávamos uma à outra como se alguma de nós pudesse saber a resposta. A vida é mesmo assim, começámos a aprender naquele tempo em que tínhamos dezasseis anos. Ainda acreditávamos que podíamos ser tudo o que quiséssemos e que nada nem ninguém nos poderia travar. Acreditávamos tanto nos sonhos como na nossa amizade que julgávamos eterna. Um dia, chegámos a idealizar um pacto de sangue. Uma agulha, os nossos dedos picados a pingar gotas vermelhas, as nossas impressões digitais a carimbar um documento que garantisse a eternidade do que sentíamos uma pela outra. Aconteça o que acontecer, nunca nos iremos separar, prometíamos repetidamente. E sempre que ouvíamos os adultos contar histórias de amigos perdidos no tempo, jurávamos que isso nunca nos iria suceder. Julgávamo-nos abençoadas, amigas para sempre, só a morte teria coragem de nos apartar. Enganámo-nos. A vida enganou-nos. Trocou-nos as voltas e empurrou-nos para caminhos tão distantes e opostos que se viram incapazes de se cruzar. Não chegaste a ser arquitecta. Eu também não. Os nossos sonhos maiores desmoronaram-se como castelos de cartas ao menor sopro de vento. As casas que idealizávamos construir hoje são ruínas que ninguém quer ver. De volta ao ponto de partida, na cidade onde há muitos anos brincámos pela primeira vez, no primeiro dia da escola primária, espero por ti. Os meus olhos adultos aguardam rever o teu rosto de menina num corpo de mulher. Quando esse momento chegar, teremos trocado um punhado de juventude por dois de sabedoria. A máquina do tempo será capaz de nos fazer regressar ao passado, àquele ponto de charneira onde nos voltámos de costas para seguir em frente. Quem sabe agora voltemos a ser capazes de traçar uma linha paralela, como nos velhos tempos, uma espécie de corrimão que possa guiar-nos para prosseguirmos viagem, desta vez lado a lado.

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