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terça-feira, 1 de abril de 2014

Matéria-prima

A palavra é o meu tijolo. Arremesso-a todos os dias, não para erguer muros mas para construir pontes, elos de ligação entre as pessoas. Gosto de palavras firmes que não sejam rígidas. Não gosto de palavras duras, feitas de pedra. Gosto delas suaves, parecidas com plasticina, as que se deixam moldar à situação e têm o efeito balsâmico de um abraço. Todas as palavras deveriam ser usadas para unir, erguer, construir. A amizade é uma palavra funda: dentro dela cabe um poço de palavras. O amor é uma palavra-mistério: todos o sentem, ninguém o viu. É como o vento, atravessa-nos o corpo, desarruma-nos as ideias e lá vai, voltando sempre, inesperado, voando selvagem. A palavra é o esboço de quem não sabe desenhar. Aos olhos de um escritor, todo o mundo é um puzzle de palavras encaixadas, onde sempre faltam ou sobram peças. Toda a palavra pode, toda a palavra muda. Por isso, lança as tuas palavras. Mesmo baralhadas como as cartas, elas têm poder. Ao não as usares, abdicas de ser quem és, e estarás condenado a viver escondido num buraco solitário chamado silêncio.   

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